MONSTRO NA GARAGEM
  

THE LIVE BY NIGHT - O PENSAMENTO DE NICHOLAS RAY

 

 

Se é que uma só imagem que resuma a visão de Nicholas Ray tem da condição humana, essa imagem é a da caça. Por vezes isso expressa-se na luta do homem com o mundo animal (Wind Across the Everglades, The Savage Innocents), mas na maior parte dos casos o homem caça o seu semelhante (They live by Night, On Dangerous Ground, Johnny Guitar). Enquanto outros realizadores tem explorado reptidamente a figura do predador, o interesse e a simpatia de Ray tem ido principalmente para a vítima. Os personagens de Ray são pessoas inseguras, instáveis, aterrorizadas pelo ambiente que as rodeia, ou transportando consigo as sementes da própria destruição. É freqüente os seus heróis serem jovens, confusos e vulneráveis (They Live by Night, Knock on Any Door, Rebel without a cause), ou serem portadores de sinais exteriores de isolamento emocional (a perna artificial de Tommy Farrel em Party Girl, a cegueira de Mary Walden em On Dangerous Ground. Por vezes rejeitam o progresso e as coisas modernas; podem escolher ir viver em zonas primitivas, ou serem enviados para lá (o deserto em Bitter Victory, os pântanos da Florida em Wind Across The Everglades, a Nova Inglaterra rural em On Dangerous Ground). As viagens que os levam para mais perto da natureza podem também oferecer-lhes esperanças de salvação.

Uma descrição dos temas de Nicholas Ray, que envolva, como não pode deixar de ser, palavras como “alienação”, ”solidão”, “insegurança”, parece coloca-lo solidamente no seio das correntes mais importantes da arte do século XX. Estas palavras não nos ajudam muito na compreensão da singularidade da Obra de Nich Ray, mas parece mais a vontade ao discutir personagens e temas do que quando discute a mise em scène que veicula o seu impacto. Com efeito, as suas tentativas para discutir a mise em scène são freqüentemente evasivas e por vezes banais, como quando descreve os tiros vindos do helicóptero em They Live by Night, que representariam “o branca longo do destino, a perdição”. Mas, tanto quanto tema e mise em scène são separáveis, é a complexidade e frequente violência da segunda que torna tão única a experiência de ver um filme de Nicholas Ray.



 Escrito por Treponem Pal às 07h31 PM
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