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GLÓRIA FEITA DE SANGUE - UMA REVISÃO

‘Glória feita de sangue’ (Paths of Glory, 1958), revisto depois de alguns anos, é um grande filme. Kubrick desvia o foco dos soldados mártires, que no romance eram os heróis, para os bastidores de um confronto sub-reptício, refinado, decadente entre os grandes deste mundo (do microscosmo mundo do Exército, ao menos), o que permite à sua encenação aquela teatralidade fria, fluida, precisa e cintilante que tanto trava a intenção moralista do filme. Mas o cinismo de Kubrick se reveste de um barroquismo hierático, sem complacências cafajestes para com a dignidade humana, apesar do personagem de Douglas. O que importa é o "jogo de massacre", e ambos os termos tem importância semântica fundamental: a encenação sombria, codificada, representativa do Mal é tão essencial quanto a questão propriamente ontológica do mesmo. Máscaras não existem para nada, apenas como fachada de uma identidade em recuo; a identidade é que não seria nada sem as máscaras de que se traveste. O mesmo para qualquer constatação a respeito da miséria do poder, das ânsias da carne, dos labirintos do desejo, ou qualquer outro chavão com que me queiram presentear. O que seria destas fortalezas com que nossa moralidade vaidosa se defronta, que alimentam nossos discursos beligerantes, sem as encenações correspondentes? É nesse sentido que Kubrick é ( também) um formalista, e os fantasmas ideológicos de ‘Glória feita de Sangue’ só servem para assombrar um mundo oco, fechado em si mesmo e destinado a um apodrecimento gradual e inexorável. Se a suposta mensagem moralista do filme entrou em desuso, os seus fantasmas não. Mas, como em ‘O Iluminado’, qual a via de volta, a rota onde se entrincheiram os fantasmas do filme? Kubrick apenas nos apresenta um espaço projetado subjetivamente como se ele fora objetivamente (mas objetivamente à imagem da abstração, da reificação como princípio) erigido.

EFEMÉRIDES - ÀQUELES QUE SE FORAM COM 2005:
SIMONE SIMON
Não poderia passar em branco a efeméride de de Simone Simon. Era uma de minhas atrizes favoritas, uma verdadeira bonequinha de alabastro, discreta, suave, frágil e envenenada, a intérprete inesquecível de maravilhas como A besta humana de Renoir, 'Sangue de pantera' de Tourneur, Mademoiselle Fifi de Wise, 'O homem que vendeu a alma' de Dieterle, La ronde , le plaisir de Ophuls.
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SIMONE SIMON EM 'CAT PEOPLE', DE TOURNEUR
Ao questionarem-no sobre o porque de escolher Simone Simon para o papel de Séverine, na obra-prima de 38,e não uma das vampirescas femme-fatales da época, o mestre Renoir não hesitou: Simone não é um desse talentos ostensivos, que depois de uma "expressão", se viram par ao público e piscam: O que vcs acharam? É um talento discreto e, por isso, forte. Ela desliza pelo cenário, é modesta, nunca exagera, por isso soube ser minha cara Séverine, essa personagem passiva e ao memso tempo destrutiva, esse minúsculo centro do mundo que são todas as mulheres que trazem a infelicidade na esteira de seus saltos altos". Se qualquer uma dessas vedetes cretinas de hoje em dia prestassem atanção na discrição genial de Simone Simon, ou na elegância incisiva de Jeanne Moreau, e parassem de piar, suspirar, gemer, gozar, escoriar nossa sensibilidade com mil signos de obviedade e mal-gosto! C'est la vie. Simone, para sempre.

Simone Simon em 'A Besta Humana', de Renoir
Escrito por Treponem Pal às 07h49 PM
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