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OS MELHORES FILMES VISTOS (OU REVISTOS) EM 2005. CONTINUAÇÃO
A Paixão de Joana D´Arc – Robert Bresson (1962) - Como parte da chamada tetralogia da prisão, ao lado de ‘Diário de um Pároco de Aldeia’, ‘Um condenado a morte escapou’ e ‘Pickpocket’, a ‘Paixão de Joana D´Arc’ só pode ser vista e analisada a partir de um ponto de vista essencialmente não materialista. O cinema de Bresson é marcadamente transcendental, como reação aos dados concretos do mundo. Momentos de sublime lirismo visual traduz as seqüências do processo movido pelo Tribunal da Santa Fé, transformando-o em um embate do ser humano contra a intolerância religiosa.

Através de um Espelho, (Sasom I en Spegel, Ingmar Bergman,1961) – Todas as obsessões de Bergman estão presentes na conhecida ‘trilogia do silêncio’, ou ‘trilogia da fé’, composta ainda por ‘Luz de Inverno’ e ‘O Silêncio’: a impossibilidade da comunicação, perda da fé, o silêncio de Deus e a inevitabilidade da morte. Numa seqüência emblemática, Karin, uma histérica recém liberada de um hospital psiquiátrico, vê Deus numa aranha escondida atrás de uma porta. A alegoria do esforço místico de identificação e reconhecimento da epifania, extraído da epístola paulina “Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas depois veremos face a face”. Aqui, resta definitivamente consagrado o cinema existencial bergmaniano que influenciaria, doravante, toda uma gama de realizadores, de Woody Allen à Hal Hartley.


Alphaville, Jean-Luc Godard (1965) Entre meados de julho e fins de agosto de 1946, público e crítica franceses, assistem pela primeira vez, a um punhado de filmes que a ocupação alemão impedira de chegar a Europa. Entre eles, Laura, Pacto de Sangue e é claro, O Falcão Maltês. O cinismo e o pessimismo destas obras encontraram uma imediata ressonância no estado de espírito francês que, assim como todos os povos europeus, se encontrava bastante debilitado depois de cinco anos de intensos e desgastantes conflitos. Em particular, serviu, neste caso, como ponto de referência para este mix de sci-fi estilizada e drama psicológico obscuro.

Cat People, Jacques Tourneur (1945) – Concordo com críticos que dizem ser este filme um dos melhores filmes de horror da história do cinema. Mas como podemos definir esta produção de Val Lewton? Seria um Noir estilizado ou um sugestivo filme de horror B? Ou ainda um suspense elegante e sinuoso produzido pela RKO? Talvez todos os sub-gêneros citados colaborem, em sua matriz teatral e pictórica, para exprimir uma só visão no qual todos os elementos da encenação - que é provavelmente a herança mais importante da experiência expressionista e do Kammerspielfilm – representem o destino trágico e inescapável da personagem Irene Dubrovna (Simone Simon), obcecada com uma maldição ancestral que transforma humanos em felinos. Dezenas de fotogramas antológicos, como o encontro, no dia do casamento de Irene - e, portanto, no dia mais feliz de sua vida -, com a outra mulher gato: rosto vicioso, rosto de gato, que mia em uma língua ininteligível apenas para sua colega de espécie, lembrando-a do seu destino infeliz. Mais uma vez, o vício está carregado todo no olhar, no poder do primeiro plano, na conformação visual do rosto e na relação especular que se estabelece entre duas mulheres felinas. Grande filme, além de um generoso estudo sobre a sublimação sexual feminina.


Escrito por Treponem Pal às 06h56 PM
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OS MELHORES FILMES VISTOS (OU REVISTOS) EM 2005
Cannibal Holocaust, Ruggero Deodato (1979) – O DVD inglês, duplo, da Vipcon, foi me dado em presente por uma amiga recém chegada da Europa. As expectativas eram grandes: da lista homônima de cinema que participei, a primeira escolha do diretor Reichenbach para sua “sessão comodoro”, até as análises e dicas de colegas blogueiros apondo o filme como um dos mais ultrajantes da história do cinema. Uma lenda, para mim. Mas uma surpresa: a estrutura narrativa do filme é tão surpreendente e inovadora que por vezes suplanta o sangue e as vísceras (abundantes) contidas na película, fazendo com que o medo mais instintivo e primal se revele em meio ao desespero dos sobreviventes. A impotência dos jovens personagens diante da tragédia eminente – tão assustadora quanto sedutora – é ressaltada pela distância quase metalingüística do eixo narrativo. Participamos com um pseudo distanciamento do banquete infernal.

Ordet – (Palavra, Carl T. Dreyer,1955) O filme mais radical de Dreyer e também sua obra-prima. A narrativa emocional, já depurada do excessos formais derivados do expressionismo alemão, fala novamente da intolerância religiosa e da busca metafísica. O conteúdo emocional e psicológico dos personagens vêem a tona através do enquadramento dos rostos, da somatória fotográfica do claro-escuro e dos cenários em penumbra.

Escrito por Treponem Pal às 06h39 PM
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ASSIM ESTAVA ESCRITO - Uma revisão

Assim estava escrito (The Bad and the Beautiful, 1952, Vincent Minelli) – Tal qual nos filmes criados por Hitchcock, os personagens de ‘Assim estava escrito’ só percebem o mundo como aparência – ou não entendem sua natureza dual - , não percebem que são apenas uma pequena engrenagem na máquina do entretenimento hollywoodiana. Aliás, percebem, mas sofrem para obter este discernimento. O produtor Jonathan Shields (Kirk Douglas) é um odioso executivo do sistema de estúdios que usa e abusa da confiança dos membros do seu círculo para atingir a glória cinemática. Não poupa nada, nem ningúem. De um diretor iniciante, interpretado por Barry Sulivan (talvez inspirado em Jacques Tourneur), passando por uma starlet em ascensão (Lana Turner) até um executivo de estúdio (Walter Pidgeon), ninguém escapa à canalhice de Shields, embora todas as potenciais vítimas se desnudem das suas ilusões e inocência, atributos estes totalmente dispensáveis no contexto da ‘Hollywood Babylon’. A fotografia de Robert Surtees impõe dignidade à película, cobrindo a tela com um preto e branco suntuoso. Filho dileto da estrutura narrativa de ‘Citizen Kane’, de Welles, em contínuos ‘flashbacks’ organizados em blocos, ‘Assim estava escrito’, ao lado de “Sunset Boulevard”, de Billy Wilder, é um amargo e desmistificador testamento da velha Hollywood.

Escrito por Treponem Pal às 06h38 PM
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