| |
SAUVAGE INNOCENCE - Philippe Garrel
Uma aventura sobre os tetos de Paris; uma ponte entre Stendhal, de “Le rouge et le Noir”, e a resistência estética de Godard; a influência notória de Jean Eustache (La Mamá y la puta) e o encontro inevitável com “L´Atalante”, de Vigo. Todas as tentativas de rotular e ‘acondicionar’ em pautas jornalísticas - sob o ponto de vista crítico -, o cinema de Philippe Garrel resultaram ineptas; seu cinema poético, sim, nos remete diretamente aos devaneios de Jean Cocteau. Uma visão sombria sobre Maio de 68 francês, seus arquétipos, inimigos e heróis tremulam na tela, correndo por sob os tetos de uma Paris em chamas, quase expressionista, em Amants réguliers.
Philippe Garrel ganhou o prêmio de melhor diretor do Festival de Veneza, em 2005, pelo filme Les Amants Reguliers. O longa, em preto-e-branco é protagonizado por Louis Garrel e Clothilde Hesme, narra a vida de um grupo de jovens um ano depois das barricadas que paralizaram Paris em 1968.
Mas gostaria de me ater, neste particular, mesmo em parcas palavras, a um filme em especial simbólico do diretor Philippe Garrel, o mesmo homem que dizia fazer filmes para não suicidar. Este filme é Sauvage innocence (2001).
Philippe Garrel acostumou-se a trabalhar com orçamentos minúsculos e em relativa obscuridade. Apreciado por um número diminuto de cinéfilos dedicados, mas ignorado pelo mainstream ao ponto de ter somente uma de suas obras liberadas para o mundo de língua inglesa (o projeto, Marie pour mémoire, em 1967), Philippe Garrel tonou-se o poeta romântico de visões oblíquas e impenetráveis. Começou a dirigir em 1964, do qual resultou o projeto Enfants désaccordés, Les, embora somente quatro anos mais tarde obteria alguma notoriedade. Um filho de 1968 e da Nouvelle Vague com um admiração particular por Godard, suas películas podem ser dividas em dois períodos. O primeiros são trabalhos notoriamente underground: visões herméticas da alienação artística, no contexto dos anos 70, resultado da união e colaboração com Nico, do Velvet Underground, com quem viveu por dez anos. E a presença de Nico há de se manter em seus filmes para além de sua relação e para além da morte daquela, sobrepondo-se na vida e nos filmes, e nos filmes com outras mulheres que vieram depois de Nico. Estes foram os anos selvagens de Garrel, da dependência em drogas, da libertinagem e da alienação extrema, que culminaram em uma experiência psiquiátrica eivada de traumas. Essas visões assombrariam as películas que se seguiram, particularmente em Anémone (1968) e Le lit de la vierge (1969). A partir de 1979 escolheu prosseguir em um cinema mais narrativo, elidindo as visões herméticas e abstratas que até então seus filmes refletiam. O resultado é uma série de retratos autobiográficos e coerentes com sua formação; um sentido de intimidade desconhecida pelos espectadores de seus trabalhos, porque compostas de momentos, de fragmentos cotidianos, ligados, sempre, por uma reflexão elíptica. Conversações e silêncios entre amigos e amantes. E, sempre, o pensamento. Poucos diretores conseguiram refletir e capturar com tamanha força a contemplação dos movimentos dos corpos, em uma base elegante, retratadas com tomadas longas, sempre com um corte muito pequeno ao redor de uma cena. As cenas são filmadas com delicadeza e uma paciência que transformam suas imagens no exato negativo do que a maioria do cinema narrativo faz hoje em dia, sem o interesse quase explícito de agarrar audiências e manipular estados emotivamente falsos.
Mas que filme é este Sauvage innocence (2001) objeto deste post? Nele podemos ver coisas que só podem ser vistas nos filmes de Garrel. É um filme sobre filmes. É um filme sobre alguém que quer fazer um filme, sobre alguém que faz um filme, sobre o que se passa ao querer fazer e ao fazer de fato o filme, sobre as conseqüências disso.
É um filme sobre a relação de duas pessoas. É um filme sobre a relação de duas pessoas onde permanece, trazida por uma delas, a relação anterior.
Novamente é um filme sobre cinema. Sobre o que fazemos quando vemos um filme, na medida em que estamos sempre a operar um conjunto de substituições e sobreposições. Sobre aqueles que vivem a representar, entre a vida e a realidade, a realidade da imagem.
Escrito por Treponem Pal às 01h21 PM
[]
[envie esta mensagem]
|
|