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IN COLD BLOOD - RICHARD BROOKS

“Quem mataria quatro pessoas à sangue-frio por causa de um rádio, um binóculo e quarenta dólares?”, diz o agente Alvin Dewey, responsável pela investigação da odiosa e imoral chacina de toda uma família no interior desolado do estado do Kansas. Após um ano de perseguições são detidos dois ex-presidiários, ainda sob condicional, cujo julgamento e condenação se arrastou por longos anos até o enforcamento, na madrugada de 14 de abril de 1965. Truman Capote (1924 – 1984), então com 33 anos, escritor de crônicas furibundas para o jornal The New Yorker, colheu relatos, reportagens em pequenos tablóides, entrevistas e acompanhou os dois assassinos responsáveis pela tragédia até a execução; o resultado foi o monumental híbrido jornalísto-literário In Cold Blood (A sangue Frio). Ao lado de outros arautos do jornalismo impressionista – ou new jounalism, como veio a serem conhecidas essas narrativas - (Gay Talese, Norman Mailer, Tom Wolfe), Capote perpetrou um estilo delicioso, sofisticado, um mix entre jornalismo e literatura que se consagra completamente no livro-reportagem propiciando a personalização de uma informação que se identifica com o "interesse humano” , e que alcança, por sua vez, um resultado próximo da crítica social e da opinião velada, ou seja, flagrantes e incidentes da vida ordinária. Em 1967, Richard Brooks, notório e notável diretor das adaptações cinemáticas de Sweet Byrd of Youth (Doce pássaro da juventude, 1962) e Cat on a Hot Tin Roof (Gata em Teto de zinco quente, 1958), do dramaturgo Tenensee Williams, se aventura a penetrar nas mentes perturbadas dos dois assassinos, no poderoso In Cold Blood (A sangue frio, 1967), a homônima viagem pelo interior sombrio dos Estados Unidos, que narra, ao mesmo tempo com a distância e frieza de um ‘actors studio’ e a abordagem de dimensão humanitária e trágica do cinema de Dreyer, a tragédia familiar e pessoal dos envolvidos no massacre. Como personagens dostoievskianos – Brooks dirigiu uma adaptação satisfatória dos Irmãos Karamazov, em 1958 – não há explicações ou tentativas de se justificar os crimes; em nenhum momento o diretor se impõe um tom meramente moral ou mesmo vingativo, muito pelo contrário, há um angustiante clima de tragédia que envolve indiscriminadamente todos os personagens de maneira sinuosa, favorecido pelo preto e branco ‘chapado’ da fotografia. O sufocante passeio edípico pelos tormentos pessoais de Perry Smith, confronta-se com a aparente felicidade pequeno-burguesa da família Clutter, resultando não em um confronto de dimensões sociais ou questionamentos sobre o lado dark da américa mas num legado de estranheza do comportamento humano. In Cold Blood refaz, em tom seco de road movie, os passos relatados pela polícia, o doloroso martírio dos membros da família Clutter, o périplo em fuga dos assassinos, a queda e o final dramático: “Gostaria de pedir perdão, mas para quem?”, murmura um atormentado Perry Smith, frente ao cadafalso.
Escrito por Treponem Pal às 12h34 PM
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TABU - MURNAU

O conflito entre natureza e civilização ou, mais precisamente, entre a busca pelo olhar inocente e o artificialismo que regula e que sustenta as relações dos homens em sociedade, é a temática que complementa a estrutura narrativa de Tabu, último longa-metragem de Murnau, co-dirigido pelo documentarista Robert J. Flaherty. Tabu retrata a luta de um jovem casal, em ilha paradisíaca no Taiti, contra a Lei que, de forma implacável, coloca-se entre eles. Assim, de um lado, há o amor – puro, virginal –, força transcendente pois verdadeira, já que se fundamenta nas emoções e nos sentimentos, de outro, existe o código que o reprime, uma vez que se baseia na ilusão, nos artifícios criados pela racionalidade humana para, através da interdição da mulher escolhida pelos deuses, manter a unidade cultural dos vários povoados dispersos pelas ilhas. É preciso reparar, de fato, que se trata de rito construído socialmente, embora naturalizado a fm de não o parecer, no qual a ira divina serve de justificativa para as regras elaboradas pela comunidade para controlar a si própria. O amor também se encontra no centro de Aurora e de Fausto. Em Aurora – primeiro filme de Murnau nos EUA, com carta branca da Fox para inovar (Oscar de melhor produção artística, fotografia e atriz, para Janet Gaynor) – a união do casal, que vive no campo, é ameaçada pela amante proveniente da cidade, despertando no marido o sonho pela agitação urbana. Murnau opõe a eternidade do amor entre os protagonistas – simbolizada no re-casamento na igreja, seguida da inserção de travelling do casal caminhando em imagem de rua movimentada (de maneira que carros e bondes literalmente passam através dele, como se estivesse para além daquele lugar), até o beijo que paralisa o mundo, em seqüência das mais extraordinárias do cinema – à efemeridade do meio urbano, mundano e frívolo por excelência. Notável, e ousado, que ainda em 1927 Murnau discuta e expresse visualmente o que Simmel, Benjamin e Kracauer identificam como "hiper-estímulo" proporcionado pela cidade, a saber, a superexcitação dos sentidos por meio, sobretudo, do aumento da velocidade e dos choques sensoriais advindos com a era moderna – a viagem de bonde que leva George O’Brien e Janet Gaynor do campo para a cidade, a qual transcorre a partir de suaves mudanças na paisagem exterior, sintetiza séculos de movimentos migratórios, desde os cercamentos na Inglaterra seiscentista. Já em Fausto, Murnau aponta o amor do herói por seu par romântico – sentimento que assume a pura abstração, ao final, visto que se representa através da palavra "liebe" escrita na tela – enquanto única força capaz de libertar o personagem título da dominação nefasta de Mefistófeles (Emil Jannings que, como em A Última Gargalhada e em Tartufo, tem atuação impressionante) e, por conseguinte, redimir a humanidade de suas faltas e de seus sofrimentos. Da mesma forma que ao marido de Aurora, são as tentações mundanas que afligem Fausto, o qual acaba seduzido pela aparência de juventude, e pela chance de dela usufruir, oferecida pelo demônio. Em ambos os filmes, como também nos demais, está em jogo o questionamento da moral humana. Os amantes devem fugir, mesmo que sob risco da morte, ou se submeter à Lei em Tabu? O cinema representa o mundo que se descortina à frente da câmera, de sorte que não interessa a Murnau o real objetivo, e sim a realidade pró-fílmica, a verdade do filme, o espaço cênico que se constrói com a linguagem cinematográfica e no qual os personagens estão mergulhados. Para Murnau, o espaço – verossímil em todos os detalhes – serve a fim de trabalhar com a dicotomia entre o meio social artificialmente regulado e controlado e a inocência com que os personagens o enxergam: o interior simétrico do hotel Atlantic, em consonância com as formas regulares da cidade e em contraponto ao cortiço assimétrico onde habita o porteiro em A Última Gargalhada; a visão onírica do meio urbano pelo marido, e o conflito com a cidade real, em Aurora; o burgo com os pés no fantástico em Fausto; as ilhas idealizadas do Taiti em Tabu.
Faz-se necessário também ressaltar, a fuga do casal de Tabu sobreposto ao mito judaico-cristão da queda e expulsão do casal primeiro, Adão e Eva, do paraíso terrestre, condenado por uma lei divina intransponível e perpetuamente inquestionável, contribuindo para a condução das pequenas tragédias pessoais e o sentimento eterno da ausência metafísica. A realidade enquanto artifício, a civilização como aparência. As leis e normativas de cunho deísta são, sim, fruto da visão corporativa dos homens, assim diz Tabu.
Escrito por Treponem Pal às 05h08 PM
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CDS QUE SÓ EU TENHO (HOMENAGEM AO ANGELI)
OVO CICATRICI (Bar la Muerte, Ebria Records) ERadical noise, post-industrial que alterna ruídos programados através de guitarras fuzz com o silêcio sistematizado pelo atonalismo da escola de Viena. Dialogando ao mesmo tempo com o jazz e o minimalismo. Som bastardo de instituições americanas de White noise, tais como Pussy Galore, Sonic Youth, embora sem concessões ao tecido pop.

NIPPON & THE SYMBOL EUniversonbangorfeo - letture musicate da I. Calvino, D. Buzzati, D. Campana (Ebria Records) EMusica e literatura, semi-improvisações com textos de 03 grandes escritores italianos (Calvino, Dino Campana, Dino Buzzati). O clima jazzy suspirando decadência de cabarErevela a excelência dos músicos comprometidos com o projeto Nippon & The Symbol. Uma passagem de ida pelos labirintos da semi-consciência. As belas ilustrações surrealistas contidas no encarte, a cargo de Izidoro Domenico Romano, correspondem visualmente aos elaborados quadrosEmusicais aleatoriamente espalhados pelo CD, lembrando, por vezes, o trabalhos metafísico de De Chirico.
IOIO EBright Future (Ebria records) EAvant guitar, electro wave, cute pop com letras teatrais envolto em experimetalismo sonoro. Projeto sem rosto que deixaria as bandas de vanguarda da label Dragon Flight em pânico. www.ebriarecords.com

PNEUMATIC DETACH EVis-Cer-A (HIV 15, Hive Records, Metropolis Records) EHard Electronix, EBM, Post-Industrial. Inclassificávei além do bem e do mal. Demonstra a capacidade da música eletrônica de se auto-renovar em um contexto puramente sintético, a princípio não renovável. Tudo é sintetizado, a presença humana não se faz sentir. Harsh noise paranóco e auto-destrutivo. www.hiverecords.com www.metropolis-records.com

SATANICPORNOCULTSHOP EZap Meemees (sonore) ETripnotica confrontando colagens breakbeat eletrônicas com samplers new bossa. Satanicpornocultshop has created na impenetrable bubble of sound in his dreamy soundscapes.

CHAOS AS SHELTER EIn the shelter of Chaos (rectrix) Projeto israelense de harsh noise tão subversivo quanto enigmático. Referências a cabala mística judaica, tribunais da santa fé, terrorismo, perda da identidade cultural e espiritual. Sonoridade eletrônica agressiva com destruição gradual da tonalidade. Recomendado apenas a iniciados.
...הוא מחפש את רחוב משה רבינו, ובמקום רחוב משה רבינו מפנים אותו לרחוב משה הס, ומשה סנה, ומספר מוישאים אחרים, אנשים בשר ודם, היסטוריים, פוליטיקאים והוגים ואולי אנשי תרבות, אך את הרחוב של משה רבינו, שעל פי תורתו הוא ואבותיו חיים, אין הוא מוצא...

PREDELLA AVANT ECarbon Figures (ars Musica/Black Rain. Música etérea no limite do obscurantismo goth; impressionismo dark e paisagens eletrônicas na tradição de Dark Muse e Cocteau Twins.

Escrito por Treponem Pal às 03h23 PM
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