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IDA LUPINO A RAINHA DOS FILMES B

Ida Lupino, a única mulher do cinema americana a dirigir um filme Noir, brigou de igual para igual com outros homens da indústria do cinema criando a companhia independente FILMMAKER, mas sua carreira como atriz, retratando femme fatales sob a batuta de Raoul Wash (High Sierra), reporta-se aos anos 1940.
O projeto de Hitch-hiker indica as originais obsessões e consistências de uma grande diretora, demonstrando a mudança de foco dos personagens, se apartando das histórias de culpa e tribulações de mulheres cuja posse total da sua sexualidade necessariamente aponta para o castigo do sistema patriarcal, tão característico nos filmes Noir, mas retratando um pequeno universo de personagens masculinos: a ausência das mulheres no filme – no caso as esposas dos personagens – seu quase erro em ‘abandoná-las’ e permitir a troca do lar burguês por uma aventura de final de semana, reduz o macho à mesma sorte da força perigosa, irracional que as mulheres representaram na maioria dos exemplos de ‘hard-boiled’ noir dirigidos em Hollywood.
Lupino criou para si o verdadeiro retrato das mulheres advindas dos filmes Noir: permitiu manipular homens em seu set de filmagem, falou de temas incômodos como bigamia com um realismo brutal e, sobretudo, despiu-se da vulnerabilidade atribuída às mulheres do cinema americano, era inteligente – cursou artes dramáticas na Real Academia de Londres – convicta – teria sido uma escritora de sucesso não fosse as pressões familiares, tingiu os cabelos e arrancou as sobrancelhas, interpretou os papeis que importavam; buscou a independência na produção de filmes B. Sempre disse que gostaria de ter visto outras mulheres dirigindo e produzindo, mas nunca escondeu o desagrado em trabalhar com suas pares nos sets de filmagem.

Escrito por Treponem Pal às 05h37 PM
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HITCH-HIKER - A OBRA PRIMA PERDIDA DE IDA LUPINO.

O começo da tensão e do suspense se faz quase imediatamente, e é sustentado durante todo o filme com o périplo dos homens aos desertos do sudoeste de Califórnia e México. Os dois homens tentam procurar meios para escapar de um assassino em série, Emmett Myers (Talmann), filmado por Lupino primeiramente como um ser satânico – algo abstrato -, das mãos aos pés, e, posteriormente, como uma figura cujo sorriso, o rosto iluminado pela chave-baixa, parece flutuar por sobre a ação e o espaço dos personagens. Com seu olho direito paralisado (dorme com ele largamente aberto), Myers pode representar o retorno de algo demoníaco advindo do nazi-fascimo que os dois homens confrontaram durante a guerra; pode também representar algo inerente à violência do macho americano que, libertado pela guerra, tem que ser enfrentado de frente, sem truques, e derrotado pelos dois veteranos antes que possam retornar a uma vida normal. A sensação de solidão dos três homens e a angustia dos dois ‘raptados’ são perfeitamente criadas pela direção e pela técnica, que transpira realismo e cria uma metáfora incomoda dos povos submetidos a um domínio autoritário que em nenhum momento consegue encontrar uma maneira de se livrar de seu opressor, sempre onipresente.
O uso de Lupino do ajuste da paisagem desértica, com seu olhar opressivo sobre o nada e sobre o esquecimento, rico com associações à devastação nuclear, parece lançar um olhar encorajador ao florescimento das películas sci-fi que tomaram de assalto os cinemas e drive-ins alguns anos mais tarde. Este mesmo deserto que os isola em um ambiente potencialmente mortal, demonstra a capacidade narrativa do filme Noir produzindo o mesmo efeito que uma cidade à noite, com suas sombras premonitórias, suas estradas sinuosas e o caráter sempre duvido de seus personagens, por demais críveis e realistas.
O complexo jogo de aparências em Hitch-hiker (1953) até os objetos escondem seus desígnios: as transmissões de rádio escondem a verdadeira posição da polícia, as roupas dos personagens são trocadas com as roupas do psicopata encobrindo o verdadeiro assassino, os veículos são trocados, os diálogos - quando existem - são eivados de duplicidade, com aprovação da violência e da coação e não forçosamente de sua origem; aprovação que é trazida do exterior – do deserto – a uma narrativa quase imaginária, por um narrador inexistente. As motivações e identidades dos personagens refletem-se no meio físico em que a ação se desenrola: escuridão, deserto, sombras. A violência, a ameaça de violência, as suas conseqüências, tudo se encontra relacionado com automóveis. A belíssima fotografia de Nicholas Musuraca (Cat People) cria um mundo de sombras profundas e preto-e-branco sólido.
Todas as emissoras de radio e jornais noticiam a fuga de Emmett Meyers, um perigoso assassino. Sem gasolina, pede carona a dois homens, Ray Collins e Gilbert Bowen, que viajam de férias. Sob a mira de um revólver, Collins e Bowen são obrigados a levá-lo para o México, onde pretende escapar de barco para a América Central. Collins quer reagir imediatamente, porem Bowen prefere aguardar uma boa oportunidade.

Escrito por Treponem Pal às 05h34 PM
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