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PUT BLAME ON MOM, BOY
Da simples análise comparativa entre os filmes da era dos estúdios, do cinema-indústria, à fase mais autoral de Hitchcock – cinema técnica -, já no final dos anos 1950, pode-se depreender a exacerbação do tratamento do autor com relação a duas personas reiteradamente presentes em sua obra: as amantes frias e maternais e as mães extravagantes e, não raro, neuróticas. Hitchcock nunca foi muito lisonjeiro com as mães, já dizia Peter Bogdanovich. Podemos acompanhar a gênese, a evolução e - sem medo de cometer um erro filológico -, a sistematização dessas duas figuras contraditórias entre si, mas complementares na criação de sólidos elementos dramáticos; da fase inglesa ao ápice criativo já nos anos 1950, sob os auspícios de Irvin Thalberg. Limitar-me-ei à figura materna. O roteiro a seguir é meramente exemplificativo, nunca taxativo; não que as mães pululem nos filmes de Hitch, mas, por certo, sua presença é de inegável interesse para valorização psicológica da trama.
Stage Fright (Pavor nos bastidores, 1949) – Talvez a matriz das mães excêntricas, neste ato interpretado pela grande atriz do teatro britânico Sybil Thorndike. Sua melancólica e alienada presença – sempre fugindo de uma reconciliação com o marido (Alastair Sim) e alheia à azáfama criada por sua filha – embora breve em seus momentos patéticos é hilária no conjunto de atores.

Pacto Sinistro (Stranges on a train, 1951) – a excêntrica mãe do marmanjo psicopata Robert Walker (Marion Lorne) o mima e atura, encobrindo alguns de seus planos criminosos e singulares como a tentativa de explodir a Casa Branca (!) ao mesmo tempo finge desconhecer seu pendor homossexual. Encarna a pintora vanguardista, de sombrias figuras, quando submetida a situações de pressão. Um dos símbolos máximos da alienação na obra de Hitchcock.


Marnie, confissões de uma Ladra (Marnie, 1964), confissões de uma ladra – A violência envolvendo mãe e filha em uma infância sublimada pelo trauma é responsável pela frigidez da personagem interpretada por Tippi Hedren, além de uma tendência à gatunice e cleptomania. A mãe (Louise Latham) esconde um segredo terrível da filha e a trata com humilhação. O final, revelador, indica toda a monstruosidade materna, eivada de egoísmo e fragilidade.


Os pássaros (The Byrds, 1963) – O mais psicanalítico e edipiano dos filmes de Hitchcock. Em nenhum momento do filme há uma explicação plausível para o ataque dos pássaros. A vítima em mais de uma seqüência é Tippi Hedren, namorada de Rod Taylor. Em algumas sequências apenas ela é atacada, embora a cena seja dividida com outros personagens. Na longa entrevista realizada por Truffaut, Hitchcock se põe reticente quanto à interpretação dos ataques entendida como metafórica da ira materna. Mas, afinal, no campo elíptico da simbologia fílmica, a única resposta plausível para a fúria dos pássaros ainda continua sendo a alegoria da superproteção materna, visto que a mãe de Rod Taylor (Jessica Tandy) nunca foi muito com a cara da futura nora. Extremamente rica em simbolismos é a seqüência no qual Tippi Hedren se refugia numa cabine telefônica – como um pássaro numa gaiola - durante um ataque a um posto de gasolina.


Psicose (Psycho, 1960) - A mãe morta literalmente leva o filho Norman Bates (Tony Perkins) aos limites da loucura. Um desfile de patologias, crimes, desvios sexuais e, ao final, uma fulgurante vitória da personalidade materna sobre a enferma presença do filho sociopata. As mães sempre querem o melhor para seus filhos, principalmente as mães empalhadas...

Escrito por Treponem Pal às 05h55 PM
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