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AS LETRAS DE SANGUE DE LAUTRÉAMONT - II parte

Como diz Lívio Xavier no prefácio d’Os Cantos de Maldoror: “Não fosse a circunstância de ter ele uma existência civil plenamente comprovada, Isidore Ducasse poderia estar no mesmo caso de Lucrécio, autor d’A natureza das coisas, grande poeta romano sem biografia”. Por outro lado, do ponto de vista do reconhecimento da sua importância social, poderia se afirmar que ele não existiu. Neste mundo onde a imensa maioria de indivíduos que aparece e passa pela vida sem deixar nenhum vestígio da sua existência, Isidore-Lucien Ducasse não haveria de existir em separado da sua obra; não deixou nada além de uma certidão de batismo, um atestado de óbito e um livro terrível.
Por que os autores nunca lembram de associar Lautréamont ao surrealismo? Quem poderia imaginar uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de dissecação de cadáveres? Só um lunático ou surrealistas e mais ninguém. Lautréamont precisou esperar 50 anos para ser descoberto como inspirador do movimento surrealista, tanto de caráter bakuneano como marxista. Quando André Breton e Louis Aragon, médicos plantonistas de um hospital psiquiátrico em Paris, circa 1919/1920, em meio aos gemidos dos loucos e dos enfermos da guerra, começaram a enfrentar as longas noites de vigília lendo os Cantos de Maldoror, o título de poeta de maior da modernidade já estava selado. Dali foi desentranhado, das fontes ducasseanas, para fundir no mesmo campo visual várias imagens ao mesmo tempo: um homem (a razão), um touro (a força bruta), uma máquina, (a repetição) uma árvore (a natureza). Em sendo assim, a poesia em prosa de Ducasse/Lautréamont pertence incontestavelmente ao círculo restrito de textos com os quais alguns poucos franceses, geralmente jovens – Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Corbière, Laforgue e Mallarmé –, criaram, na segunda metade do século 19, as bases sobre as quais o século seguinte edificaria muito de sua melhor literatura. A centralidade desses textos e sua importância se reafirmam, até mesmo no Brasil, com a essa novas tradução da editora ILUMINURAS.
Escrito por Treponem Pal às 05h33 PM
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AS LETRAS DE SANGUE DE LAUTRÉAMONT
Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont, tem sua obra completa lançada no Brasil

Isidore Ducasse (1846-1870), nascido, de uma família francesa, no Uruguai (como dois outros poetas franceses: Laforgue e Supervielle), país onde passou a primeira metade da vida, antes de ser mandado à França para continuar seus estudos. Quase todo o resto de sua biografia é uma lacuna, ou melhor, um grande ponto de interrogação.
Autodenominado Conde de Lautréamont, influenciou toda a geração posterior ao romantismo e anterior ao decadentismo, não só pelo que escreveu, mas sobretudo pela opção de viver do sumo sagrado da poesia. Foi Ducasse quem levou ao spleen e à nevrose de Baudelaire, volúpia que permitiu às Flores do Mal traçar uma ponte direta aos Cantos de Maldoror , e desse para os abismos mais escuros da literatura.
Porque esse pobre (ele talvez, diria, podre, em sua escatologia perversa) Isidore Ducasse tem uma existência entre "humilhados seres humanos", especialmente rápida, quase tosca. Alguém que se encobre em misteriosos 24 anos mortais sob as capas negras de um personagem de Eugene Sue – autor de Os miseráveis de Paris (a quem o velho Marx odiava!) ou de Ponson de Terrail – aquele estranho Rocambole que se esgueira (como Isidore) nas vielas e subterrâneos de Paris. Claro que adulterar os fonemas com o recurso de um metaplasmo de permuta, que chamamos de metátese, é uma constante também em sua obra diminuta, surgindo da associação da palavra l’autré, que significa “o outro”, com a preposição a, que indica lugar e como sabemos ser o a um metaplasmo de acréscimo que chamamos de epêntese, uma vez justaposto à mont, raiz da palavra Montevidéu, resultou literalmente em Lautréamont, cujo sentido exato, preciso e incontestável é “o outro de Montevidéu”, já que o primeiro seria ele próprio Maldoror (que o escritor e então tradutor Claudio Willer diz poder ser uma síntese das palavras mal e horror, do idioma espanhol da infância do autor) assume as formas mais satânicas e as mais lunares metamorfoses imagináveis, fazendo o elogio ao horror e ao crime, o que teria despertado sentimentos e paixões contra a obra – não esqueçamos disso – de Ducasse. Para alguns puros, então, o Conde é a metáfora do destino do homicida e – mais do que isso – do Deicida. O Monstro por excelência. E, além do mais, um Monstro pederasta, "autor de páginas sombrias e cheias de veneno". Essa visão piedosa se contrapõe a uma obra que faz o mundo, enquanto construção literária, estremecer como o mar debaixo de relâmpagos e tempestades.
Como Arthur Rimbaud, Artaud ou Bréton, o Conde é um dos signos da aventura literária – um inventor, na insuperada classificação de Ezra Pound. Mais do que outros personagens criadores da literatura contemporânea, Lautréamont (ou Ducasse? ou Maldoror?) dilui em termos absolutos a sua existência no plano da literatura. Seu livro é um jogo da amarelinha de construções e estruturas literárias. Um brinquedo nas mãos de um rapazinho que cultiva – no universo simbólico – tudo o que lhe parece mais inadequado aos bons costumes, - à ordem, à moral - acenando para o leitor com a idéia de que adora o éter, a beladona, e o sexo "anormal", compondo odes aos pederastas, e desafiando, ardorosamente, Deus e suas criaturas, principalmente o homem. Quando penetramos no antiuniverso d´Os Cantos de Maldoror, descobrimos que o drama existencial e a loucura de seus personagens aproximam-se das instâncias anímicas e psicopatológicas dos indivíduos que vivem à margem das grandes decisões mundiais; escondendo-se atrás de gestos sádicos, cruéis e iconoclastas.

Escrito por Treponem Pal às 05h31 PM
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