MONSTRO NA GARAGEM
  

WILLI WONKA X DR. SEUSS

Não consegui acordar cedo para o meu primeiro dia pós-férias. Recusei-me a suportar o frio atípico que fustiga minha cidade logo 7:30 da madrugada. Fiquei na cama. Acordei ao abrir o olho, 11:30 hs. Um pouco de remorso devidamente sepultado pela fome. Alguns telefonemas, algumas desculpas e resolvi ir ao cinema, sozinho, na matinê, no shopping, para assistir a ‘fábrica’ de Tim Burton. 14:30 hs, um bilhete de meia entrada – cortesia da minha pós –, um saco de pipocas com pimenta e eu estava pronto para encarar a releitura do filme que embalou algumas sessões da tarde civilizadas da minha infância. Lembrei, ao sentar, que ‘Willi Wonka’, mesmo encarnado em Gene Wilder, nunca foi meu filme preferido nas priscas eras da minha meninice: sempre o achei anos 70 demais, mesmo que tenha passado na TV, pela primeira vez, nos anos 70. Não suportava ver aquela casa miserável onde moravam o garoto bonzinho e todos aqueles velhos encarquilhados. Achava muito triste. Não suportava aqueles anões, os tais Loopas, dançando e cantando aquela música que todos conhecem, com suas luvinhas brancas e suas perucas de plástico.

 

 

O meu clássico das tardes infantis solitárias era ‘Os cinco mil dedos do Dr. T’, (The 5.000 Fingers of Dr. T, Roy Rowland) um delicioso e obscuro musical surrealista realizado nos anos 50, repleto de climas oníricos, coreografias e musicas deliciosas, e aquela pitada edípica que acende liricamente os humores das crianças incautas. Há muito sumido das telas vespertinas e mesmo das madrugadas em canais por assinatura, o sonho proto-psicodélico do Dr. Seuss talvez seja desconhecido para a maioria das pessoas que tem menos de trinta anos, mas trabalha em chave afetiva/memorialística para os cinéfilos matusalênicos. 

 

 

Na quase deserta sala de exibição, no máximo uns cinco moleques acompanhados dos respectivos pais compunham o público cinemático.

 

 

O filme começou. Visualmente irrepreensível, como de hábito em Tim Burton, abre com bela fotografia em sfumatto e clima gótico de contos de fadas. Os anos Disney se faz sentir nas caracterizações dos personagens, quase desenhos animados, e no tom fabular/pitoresco que remete aos climas das peças teatrais anglo-americanas pré-natalinas ou de caráter pastoral (Wolf, Dickens). Várias referências ao cinema como um fim em si e algumas participações legais e inteligentes, como o herdeiro Hammer Cristopher Lee, no papel de um dentista (!) e pai autoritário de W. Wonka. Bem colorido e bem fácil de assistir. As crianças que compunham o grosso da audiência do cinema, ao cabo de alguns minutos de projeção, já andavam pela sala em pequenas expedições exploratórias, chegando inclusive próxima ao meu assento e dali para outros cantos mais interessantes como a porta de saída. Não esperei os créditos, sai durante a cena final da reunião familiar no qual Wonka (Depp) se reconcilia com seus fantasmas infantis. Gostei de algumas críticas sutis ao americano médio e a sociedade de consumo. Bem, mas qual filme americano, hoje, não critica a sociedade de consumo, seus desejos e devaneios? Por mais que Tim Burton se mostre um outsider dentro da engrenagem da indústria cinematográfica, sou reticente quanto às suas reflexões, principalmente quando oriundas do seio desta mesma indústria por ele menosprezada. Ao chegar em casa, uma leve dor de cabeça me abate – adoro chocolates mas em excesso eles tem sobre mim um efeito vasodilatador -, janto e me preparo para procurar na Amazon.com o DVD dos ‘Cinco mil dedos do Dr. T’. De repente, me vejo, então, nostálgico da ingenuidade verdadeira dos 50´s, onde, como disse com genialidade, certa feita, Ruy Castro, os homens ainda gostavam de mulheres.

 

 

 

 

 



 Escrito por Treponem Pal às 01h09 PM
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