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É DEUS NA TERRA E O PARTIDO NO CÉU

Os crimes de Stálin não incitam a mesma reação visceral que os de Hitler. O ponto é que o comunismo soviético tornou-se menos repressivo com o tempo. E as informações nunca vazavam. Ninguém sabia o que acontecia na União Soviética. Nenhuma câmera filmou os campos do Gulag ou suas vitimas. E a imagem move a cultura ocidental. Sem imagens, nada atormenta nossas mentes. Havia também o conceito que o ocidente fazia do comunismo. Nos anos 30, jornalistas americanos foram enviados para tentar aprender as regras da União Soviética. Um deles, do “The New York Times”, passou alguns anos por lá e voltou escrevendo que o regime era um sucesso – ganhou um Pulitzer pela reportagem. O fato de Stálin ser um dos aliados contra Hitler na segunda guerra também ajudou a ignorar a verdade sobre a repressão. Chefes de estado como Roosevelt e Churchill apareciam sempre ao lado dele. No campo das idéias, intelectuais de esquerda apoiaram o regime soviético nos anos 50 e 60. Jean-Paul Sartre voltou de uma viagem para a Russia, em 1954, declarando que existia liberdade de critica e imprensa na União Soviética. Seria leviano dizer que ele mentiu. Prefiro acreditar que ele apenas não queria dizer a verdade.
Logo explico e concluo o porquê da litania.
Bem, considerando que nunca fui muito tolerante com as esquerdas – a despeito da minha admiração juvenil por Trotski e Gramsci, hoje completamente sublimada – , considerando também seu teor autoritário revelado abertamente no pós-grande guerra; considerando ainda a incompetência na planificação econômica, a profusão de desmandos estatais sob sua gestão, desrespeito e desprezo pelo jogo democrático, corrupção e a tentativa sempre marota de iludir incautos com a idéia messiânica do partido portador epifânico da verdade e revelação históricas, achei por bem indicar neste Blogo a revisão de ‘A CONFISSÃO’ (L´Aveu, Costa-Gravas, 1970), embora formalmente acadêmico e panfletário em sua tímida análise das entranhas da repressão stalinista no Leste Europeu, é sempre pertinente assistir à história da ascensão e queda do Vice-Ministro das Relações Exteriores da antiga Tchekoslováquia, Anton Ludvik (Yves Montand), cuja sórdida tortura psicológica na qual é submetido, a inquisição ideológica praticada por seus camaradas - sempre patética em seu objetivo último -, a fé acrítica e irracional no partido comunista que Ludvik cultiva mesmo após ser brutalmente condenado pelo que não fez, nos remete indubitavelmente ao discurso de certa agremiação política-partidária de esquerda que, após uma onda de rapinagem do Estado, visando meios materiais para sua perpetuação no poder, assusta a mídia e a sociedade civil com a desculpa da vitimização por ‘uma conspiração das elites’ (SIC).

O filme de Costa-Gravas é, portanto, uma boa dica para aqueles que ainda não perceberam que o preço da democracia infelizmente é a eterna vigilância, visto que tentativas romanescas de suprimir as várias liberdades e transformar o Estado na ‘mãe de todos’ não são apenas temáticas de filmes europeus dos anos 60/70.

Escrito por Treponem Pal às 05h23 PM
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