MONSTRO NA GARAGEM
  

A ARTE DEGENERADA NO EXPRESSIONISMO DE PAUL LENI

 

Nada mais de sombras e de espelhos convexos das alegorias místicas, de delírios e pesadelos, de traumas psicológicos envolvendo o homem comum. Decretou-se o fim dos bastidores propositadamente angulosos, tortos, barrocos, típicos da linguagem carregada de metáforas do expressionismo do anos 1920. Pois aos nazistas eles pareciam sufocar, dilacerar e perturbar a boa alma dos alemães. A sua proposta de um indivíduo desligado do dever, apartado da moral, da família e da sociedade, foi denunciada pelas autoridades do III Reich como subversiva e antigermânica. O bizarro, o prodigioso e o extravagante foram banidos das telas para dar lugar ao drama superficial e a comédia ligeira (dos 1094 filmes feitos entre 1932-1945, somente 30% deles foram de propaganda, os restantes eram escapistas). A Alemanha nacional-socialista, odiando o passado recente da República de Weimar expurgou as narrativas entremeadas por ambientes de escuridão tenebrosa, implantando por intermédio de Leni o que imaginavam ser a cultura fáustica apregoada por Oswald Spengler, "uma cultura da vontade", onde "toda ética é um ascensão".

Nos primórdios do cinema alemão, com poucas exceções (vide O Estudante de Praga, de 1913), o horror no cinema restringiu-se às adaptações de clássicos literários. As obras que melhor o representaram não constituíram escola nem foram concebidas para a linguagem fílmica. Foi apenas no cinema alemão da década de 20 que o gênero consolidou-se em sua plenitude criativa: ao mesclar a estética dos seriados franceses de mistério – retomou-se a figura dos “gatunos” d’Os Vampiros (1915-1916) de Louis Feuillade – com a pujante modernidade dos cenógrafos expressionistas, o diretor Robert Wiene encabeçaria a equipe responsável pela filmagem do Gabinete do Dr. Caligari (1920), marco inicial da filmografia que elegia o terror como foco central, além de uma das maiores obras-primas jamais filmadas. Sua seqüela foi notável, e, quatro anos depois, o alemão Paul Leni lançaria Figuras de Cera (a tradução literal seria O Gabinete das Figuras de Cera), de título e elenco caligarianos (Veigt e Krauss interpretaram Cesare e Caligari, respectivamente). No filme de Wiene, um sonâmbulo é exposto numa quermesse por influência do livro que contava a história do mesmerista Caligari; já na produção de Leni roteirizada por Henrik Galeen (Nosferatu), quatro figuras de cera são expostas num parque de diversões e um escritor é contratado para escrever histórias sobre três delas.

 

 

Desta forma, essa moldura narrativa enquadra três sub-enredos, artifício tomado de empréstimo de Pode o Amor mais que a Morte? (1921), de Fritz Lang. Em pouco tempo, inspirado pela filha do proprietário do gabinete, o escritor prepara duas histórias. A primeira – filmada por Leni nos cenários mais exuberantes desde a caracterização de Hostenwall – é uma farsa a respeito de Harun al-Rachid, califa de Bagdá, cujos caprichos em relação às mulheres alheias só se equiparam à arbitrariedade com que condena ou perdoa seus desafetos. Já a segunda reúne eventos dos últimos dias de sanidade dum Ivan, o terrível que faz jus a seu epíteto, numa sublime recriação da Rússia czarista em que conspiradores subversivos amargam envenamentos em masmorras enquanto o tirano refesteia-se ao observar ampulhetas que indicam aos moribundos quanto tempo lhes resta de vida.

A terceira figura é uma mescla de Jack-Estripador e Spring-Heeled Jack, monstro lendário “investigado” por folhetins de horror da Inglaterra na década de 1830. O escritor, entretanto, adormece antes de iniciar a empreitada e descobre-se emaranhado num pesadelo que constitui o último e mais curto episódio do filme, com cerca de parcos cinco minutos. A brevidade, porém, é imediatamente compensada pela estilização onírica da vertiginosa perseguição do casal por um fantasmagórico Jack, em meio ao parque agora imerso no breu noturno. Indubitavelmente, um dos ápices artísticos do cinema mudo…



 Escrito por Treponem Pal às 04h32 PM
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