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O ILUMINADO - UMA REVISÃO

Revendo O iluminado, é engraçado constatar que o filme é uma via de mão dupla, e como a fantasmagoria dele é decorrente disso. O espaço é a projeção do labirinto psíquico do escritor; é povoado de ressonâncias, reentrâncias, círculos enfeitiçados onde a criação se nutre das necessárias pulsões sádicas, dos silêncios mal sublimados, da frustração sexual, etc A mulher e o filho presos no labirinto do jardim são, na verdade, marionetes visadas pelo Demiurgo. Mas um Demiurgo impotente, injuriado, neurastênico; um Demiurgo, um criador à beira da alternativa fatal à toda criação: a destruição da vida. Isso partindo-se do princípio de que a arte (a criação de um mundo factício) parte do movimento inversamente proporcional ao da criação vital; logo, a arte é uma espécie de aliada-arauto da Morte. Ou, apenas para reforçar a novamente a sensação de labirinto, em um mundo que só manifesta frustração e violência e impede qualquer atividade criativa em quem nele se deixar a aprisionar. Mas qual a via de volta, a rota onde se entrincheiram os fantasmas do filme? É que Kubrick nos apresenta um espaço projetado subjetivamente como se ele fora objetivamente (mas objetivamente à imagem da abstração, da reificação como princípio) erigido.
O filme não fica no mero jogo da interpolação subjetivo/objetivo já tornada clássica; dizer projeção é dizer mal, pois não se trata disso. A Charada ( é definitivamente uma charada cerebral, um quebra-cabeça de impressões desfocadas, conceitos pervertidos pela pulsão de morte, palavras-chave com o sentido irisado pela repetição maníaca) que é O iluminado não se reduz à oposição subjetivo/objetivo( resolvida pela igualmente pobre equação projeção/princípio de realidade) porque ela se nega a separar ambas. Tanto a subjetividade é oca, vampiresca, gélida, reverberante quanto a suposta ( e segura) objetividade de um mundo sólido é refúgio dos pesadelos mais pegajosos, lúbricos, da alegoria mais sinistra.
O hotel assombrado pelo cemitério indígena ( sempre o Outro anatemizado pelo cinema americano, dirão: o cemitério indígena, o voodoo como fonte do Mal, alienígina e alienante) se transforma, então, não na casa paterna conspurcada da subjetividade descentrada , ou na pólis homicida do caos enquanto ordem, mas na síntese que Deleuze tão bem descreveu como a sua alternativa à representação freudiana do Inconsciente: numa máquina monstruosa, voraz, múltipla, tétrica, onde os delírios da História e do sujeito dão-se ainda as mãos, antes do último mergulho no túmulo da subjetividade.

Escrito por Treponem Pal às 12h21 PM
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