MONSTRO NA GARAGEM
  

SOLARIS - UMA IMPRESSÃO

Assisti a Solaris pela primeira vez num antigo cinema localizado na rua sete de abril, no centro velho de São Paulo, nos estertores da década de 1980. Na verdade uma inusitada pequena mostra de cinema – um último grito de agonia antes do prédio cerrar suas portas – na qual se reuniu alguns trabalhos dos cineastas Godard e Tarkovski. Todos os filmes eram projetados durante a tarde, pois a noite o velho cinema quedava-se inativo, aguardando o fim de suas atividades que, ironicamente, eram traduzidas por películas com grande acento artístico e não os pornográficos que sempre sinalizam - como os primeiros sintomas de uma doença incurável -, o fim eminente de qualquer sala de exibição. Do Tarkovski foi projetado Stalker e Solaris, as obras primas mais perturbadores do diretor. Assisti também Alphaville, do Godard, mas a cópia estava péssima, prejudicando o belíssimo contraste do preto e branco ‘aveludado’ do original. Era uma tarde de terça-feira e me dirigi à praça da República, onde, da saída da boca do metrô se avistava o prédio do cinema, destacando-se das demais construções antigas do centro em razão das suas paredes calcinadas por um incêndio recentemente abortado. A condenação do prédio era uma questão de tempo, seus dias estavam contados. O céu estava plúmbeo e aguardava-se chuva para a tarde paulistana. O prédio do cinema, encravado entre um bar e uma mini-galeria, apresentava, na sua entrada, o resquício de um passado suntuoso: roda-tetos de gesso trabalhados sustentavam o desvão no estuque cujo espaço era pontilhado por luzes espectrais; uma grande bomboniére desativada, no centro da ante-sala do cinema, ao lado da bilheteria, remontava ao estilo art noveaux de algumas construções do centro da cidade; tapetes vermelhos em forma de língua ligando a entrada à bilheteria e pé direito altíssimo eram os corolários de um tempo imemorial, teimoso pela sua atitude altiva numa área no qual imóveis dessa natureza eram abatidos diariamente, garantido a substituição ou a expansão de prédios mais novos e funcionais.

Não me recordo o valor, hoje, do bilhete de entrada, mas era pouco, talvez o suficiente para um estudante do interior em férias em São Paulo. A sala de exibição estava vazia acentuando o caráter melancólico do lugar. A cópia de Solaris era razoável, um tanto quanto azulada em seus primeiros minutos, cercadas de imagens lentas. Seus travellings contemplativos, numa tentativa de aprisionar o tempo, de mostrar como o cinema pode ser uma experiência ao mesmo tempo pessoal e coletiva, cerebral e impressionista, deslizava pela imensidão da tela que se dilatava num forte simbolismo hermético. Em projeção, tripulantes de uma nave espacial sofrem as emanações psíquicas e emocionais de um estranho planeta, reproduzindo desejos, sonhos e recordações, fantasmas que sempre impedirão os seres humanos de dar um passo a frente na sua lenta evolução terrena. Deslocamento, conformações corporais, rostos gélidos, imagens que invadem a tela vinda do extra-campo. Uma aula de prazer estético ao mesmo tempo iniciática e gratuitamente visual, um visual sombrio, por certo. Quando sai do cinema já era noite, chovia e a azáfama de funcionários do comércio local era grande; todos fugindo da chuva e deixando o centro de São Paulo em direção a suas casas. Talvez a persistência na memória de uma miríade de detalhes desta tarde só fosse possível com o bombardeamento da retina por imagens fílmicas tão inquietantes, o resto, o centro da cidade, o périplo em si são apenas conseqüências – indissociáveis, é claro - do grande, mas já extinto, cinema de Andrei Tarkovski.



 Escrito por Treponem Pal às 04h38 PM
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