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CAT PEOPLE - SANGUE DE PANTERA

A influência do realismo poético francês – grupo de filmes realizados entre 1934 e 1939, sobretudo o Demônio da Algéria, Cais das Sombras (Quais des Brumes, 1938, Marcel Carné) e Orpheu (Jean Cocteau, 1939), que integravam o realismo com um estilo lírico, ou melhor, criavam um mundo maravilhosamente poético, mas com a impressão de verdadeiro. Como tais filmes estavam impregnados de um sentimento de amargura e fatalismo e de uma atmosfera sombria e melancólica, que desempenhava um papel essencial na ação, imputaram-lhes influência sobre os realizadores dos filmes noirs e nos filmes realizados pelo produtor Val Lewton, para a RKO, embora nítida a influência do expressionismo germânico em ambos.
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O produtor e emigrado russo, originário de uma família de teatro, Val Lewton, um especialista em trabalhar com orçamentos pequenos, B Movies com cenários aproveitados de outras produções, metragens curtas, e compensando a falta de recursos com criatividade e talento, foi o grande responsável por uma série de filmes de horror psicológico produzido pela RKO na década de 1940.
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Lewton, que trabalhou com David Selnick durante 8 anos, migra para a RKO e põe em marcha a sua própria unidade de filmes B, o que lhe permitiu produzir 6 notáveis filmes de horror de pequeno orçamento nos 2 anos que se seguiram, no qual notamente se destaca Cat People (Sangue de Pantera, Jacques Tourneur), que custou 134 mil dólares - faz 2 milhões de dólares de receitas.
Neste clássico obscuro, os efeitos especiais dăo lugar ao poder da sugestăo.
O ambiente denso com traços expressionistas é mérito da fotografia de Nicholas Musuraca, quase todo registrado em low-key (chave baixa) e iluminação estilizada, evitando climas solares e ressaltando traços vívidos dos rostos dos personagens. A fotografia em alto contraste, pontuando a atmosfera ambígua da narrativa, sugestiona a carga de simbolismo sexual que permeia toda a obra.
Irena Dubrovna (Simone Simon) é uma design de moda que vive em New York. Tímida e de poucas falas, gosta de passar a maior parte do tempo junto à jaula das panteras, no Jardim Zoológico que fica perto da sua casa. Apesar de residir em solo americano, Irena nasceu na Sérvia e năo se consegue libertar-se de uma lenda medieval do seu país que fala de "mulheres-pantera", seres que apenas com um beijo podem transformar-se em felinas dispostas a aniquilar quem se atravesse no seu caminho.
O arquiteto Oliver Reed (Kent Smith), repara na protagonista, que, mais uma vez, desenha uma pantera no zoológico. Reed a espreita, mas não é ela a presa: ela o arrebata por seu charme e o conduz a sua casa, argumentando não ter amigos nem contatos. Os dois se apaixonam e acabam por casar, mas a uni ăo năo se consuma – não há ato sexual (em nenhum momento da película a cerimônia matrimonial é mostrada) -, Irena mantém uma estranha distância da pessoa que diz amar. O despertar do desejo sexual na mulher é identificado com o desejo assassino de matar sua presa. A entrada na Lei (o casamento) se confunde com a auto-repressão. Irena frígida. Comportamento animal instintivo.
Aos poucos, os comportamentos de Irena tornam-se mais sombrios e o casamento está seriamente ameaçado. A presença da bela Alice (Jane Randolph), colega de trabalho do marido, deixa perceber as suspeitas de infidelidade. Os ciúmes e a raiva despertam em Irena um lado destruidor.
O realizador Jacques Tourneur conseguiu transformar Cat People num conto intimista e assustador, tirando partid o dos jogos de sombras e dos ruídos dispersos para anunciar a mutaçăo da personagem principal. Considerado um clássico do cinema enigmático e metafórico, esse horror, ao contrário dos filmes de monstros físicos da Universal - de certa forma produzidos pela natureza, ou pelo próprio homem, através de experiências de laboratório -anuncia a instabilidade do medo moderno, o horror moral que enumera uma série de temas existencialistas: alienação e solidão; escolha existencial; o homem sob ameaça de morte iminente; falta de sentido da existência, tentativa de estabelecer ordem em um mundo de entropia e caos.
Simone Simon encarna em Cat People uma criatura feminina típica dos filmes noir, ambígua, mas de posse de sua própria sexualidade, foge dos papéis tradicionais do sistema patriarcal e, em consequência é punida com a frigidez, a violência instintiva e a morte. Quando, ao final, é rejeitada pelo marido, percebendo a evasão de seu poder sexual, entrega-se ao seu psiquiatra num beijo mortal.
A força dessas mulheres é expressa por uma dominância no que concerne ao enquadramento, angulação e estão quase sempre colocadas opressivamente no centro do quadro, em primeiríssimo plano ou atraindo o foco para si mesmas no fundo. Os espaços abertos em chave alta se limita ao zoológico, vez que mesmo não estando em interiores a chuva e neve são constantes.
Oliver Reed (Kent Smith), o personagem masculino da trama, não passa de um arquétipo sadomasoquista – com uma incrível incapacidade para perceber as pulsões de destruição que cercam a mulher com quem se casou – que usa sua paixão como uma forma luxuriosa de autopunição.
Pelo menos três sequências antológicas: no jantar de casamento, ladeada por amigos e o marido, Irena Dubrovna, encontra uma misteriosa mulher que, com maneirismos felinos, a chama, numa lingua inintelígel, de irmã, monstrando que Irena não escapará do seu destino; Alice Moore perseguida pelos sons de pantera com a imagem ameaçadora tendo presença imaginária apenas no fora-de-campo, e posteriormente a cena em que essa mesma Alice se vê perseguida pela pantera na piscina, numa cena em que igualmente o perigo é todo construído pelo extra-campo, sob a forma dos rugidos de animal e pela maneira como o corpo de Alice se move na água (e pelos reflexos fluidos nas paredes); por último, a despersonalização de Irena. A luz capta o instante da liberação do institno e concretização do destino.

Cat People é o resultado da evolução formal no tratamento do gênero horror, na qual as narrativas simples, transparentes e lineares do começo da era sonora foram cedendo lugar para realizações mais complexas e estilizadas, mais opacas visual e tematicamente.
Escrito por Treponem Pal às 05h28 PM
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