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PSYCHO E A DISSEMINAÇÃO DO EXPLOITATION.

Psicose, adaptado de um romance de Robert Bloch, girava em torno de certa Marion Crane, mulher de caráter duvidoso que rouba 40 mil dólares do patrão e foge com a intenção de encontrar-se, numa cidade próxima, com o amante divorciado. No caminho, ela pára num motel deserto e, depois de um exame de consciência, numa conversa que tem com o proprietário do motel – Norman Bates (Antony Perkins), um jovem bem esquisito –, resolve devolver o dinheiro. Naquela noite, porém, é brutalmente assassinada por Bates, que cometera vários assassinatos – inclusive o da mãe, cujo cadáver guardara.

Os temas de culpa e redenção, de confuso desejo sexual e de ligação edipiana eram típicos dos filmes de Hitchcock, mas o diretor nunca os levara a tais extremos. Tampouco realizara nada tão violento ou tão claramente sexual. Consciente dos riscos, Hitchcock fez o filme rápida e economicamente, sob um véu de sigilo. Psicose foi rodado com um orçamento de apenas 800 mil dólares, em Universal City, nos estúdios Revue, que a Paramount alugara para o projeto. Poucos integrantes da unidade cinematográfica de Hitchcock participaram da produção. Entre eles estavam o editor George Tomasini, o compositor Bernard Herrmann e o cenógrafo Saul Bass. Os demais integrantes da equipe técnica, para essa produção de baixo custo e em preto e branco, vinham da unidade de séries para a televisão. Contrariando as costumeiras práticas publicitárias, a Paramount não anunciou previamente o filme nem o exigiu com antecedência. Em vez disso, planejou uma agressiva campanha dirigida ao público jovem, que presumivelmente apreciaria o humor sombrio e o excesso de sexo e violência. O forte da campanha publicitária seria um elaborado thriller em que Hitchcock diria um monologo, ao estilo dos que fazia na televisão. Em meio ao monologo, Hitchcock conduziria o espectador num passeio pelo Bates Motel e pela agourenta mansão das proximidades, revelando da história apenas o suficiente para atrair o público, no melhor estilo Willian Castle. A Paramount instigaria ainda mais a curiosidade do público, insistindo em que os exibidores não permitissem a entrada de ninguém depois do início do filme.


Psicose foi um verdadeiro fenômeno da industria e um dos maiores sucessos de bilheteria de 1960, atrás apenas do extravagante Ben-Hur, refilmado pela MGM. Bem-Hur reforçou a tendência de Hollywood para produções grandiosas, faturando um bruto de quase 20 milhões de dólares e levando seis prêmios Oscar, entre os quais de melhor filme. Psicose – que enfureceu os críticos, aterrorizou o público e faturou 8,5 milhões de dólares – era, porém, um filme muito mais significativo dentro do esquema geral, uma das raras experiências que forçava o espectador a repensar a própria natureza do cinema enquanto narrativa e entretenimento. Tratava-se de um longa-metragem de primeira linha que subvertia os temas do romance heterossexual e do amor materno, colocava o espectador na posição de voyeur em busca de sensação, matava a personagem principal no meio da história e misturava livremente o estilo dos telefilmes de baixo custo com surpreendentes técnicas cinematográficas. Psicose também assinalou a maturidade do Exploitation, o thriller de baixo custo realizado segundo formulas e dirigido ao publico mais jovem. Ele definiria os limites do sexo e da violência no cinema e fragmentava ainda mais o mercado cinematográfico. Mais dez anos e as telas estariam repletas de filmes B, de segunda linha, concebidos para o crescente mercado jovem – embora nenhum apresentasse a qualidade artística ou a autentica perversidade de Psicose.

Escrito por Treponem Pal às 01h13 PM
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