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LE FEU FOLLET – TRINTA ANOS ESTA NOITE

Le Feu Follet (Trinta Anos Esta Noite, 1963) espelha o retrato de um homem sem fé, incapaz de religar-se ao mundo, seja através da arte, da política ou da religião, O resultado é desastroso e irreversível.
Percebemos que nenhum desejo do personagem era satisfeito, nenhuma gratificação, por mais perversa que fosse, era alcançada. Em vez disso, um esmagador princípio de desprazer, um estado inorgânico único, um baixo contínuo contra o qual todas as inquietas evoluções e périplos por uma Paris fantasmática – não luminosa – se delineiam. A resposta de Malle foi reduzir o princípio do prazer a suas formas mais arcaicas – maníacas, nuas, além da cultura e além do sentimento de opulência e conforto burgueses. As novas estratégias de sofisticação estética e o engajamento político de alguns de seus personagens não são suficientes para livrar o protagonista do vazio.

Alain, o personagem de Maurice Ronet, é fugidio, mas também é um ser destroçado pela vida. Alcoólatra, abandonado pela esposa num sanatório em Versalhes, ele se parece, à sua outra mulher (Jeanne Moreau), "um cadáver". Alain arrisca um retorno à vida social, mesmo sem se sentir preparado. Ex- combatente da Guerra da Argélia, ele vai em busca de dois amigos da derrota. Mas a guerra e o engajamento não fazem mais sentido. Ele busca um velho amigo frívolo dos tempos de boêmia e que se tornou um bom pai de duas filhas. Mas este não lhe concede a volta ao passado, embora estude egiptologia! Alain mergulha de novo no vício do álcool num café parisiense que lhe coloca sob os olhares de dois homens. Ele ainda vai à casa da antiga namorada, que tem dois amantes. Mas tudo se lhe parece fugidio, efêmero como um fogo que se acende e se apaga no momento seguinte. Como um "fogo-fátuo" (feu follet).

Com belíssima fotografia em preto e branco de Ghislain Cloquet e pontuada pelo impressionismo de Satie, Trinta Anos Esta Noite, baseada em La Rochelle, é quase um documentário das aflições filosóficas e existenciais da geração pós segunda guerra e pré rebelião de maio de 1968. Uma análise fílmica, algo freudiano e, ao mesmo tempo, anti-psicanalítico (oriundo, talvez, de Karl Menninger) propondo, no decorrer das imagens, três componentes ao suicídio: o desejo de matar, o desejo de ser morto e o desejo de morrer.
LOUIS MALLE

Malle nunca se alinhou completamente com os cineastas oriundos do Cahiers du Cinéma (Godard, Chabrol e Truffaut), e muito menos foi por eles aceito sem restrições, porquanto era visto como um herdeiro dos acadêmicos da geração imediatamente anterior, como Claude Autant-Lara e Julien Duvivier. Dificilmente, hoje, se leva a sério tal assertiva diante de filmes como o paradoxal My Dinner with André e o surrealismo pop de Black Moon.
Escrito por Treponem Pal às 03h22 PM
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