Encerrados no labirinto mental de Alex Delarge (Malcolm McDowell), os espectadores vão progressivamente passando de vítimas imoladas a elementos de um Coro da Tragédia Grega que clama vingança, observa, horroriza-se e revê-se. O reflexo irônico de uma sociedade que caminha, apressadamente, para a extinção de valores e da própria humanidade.
Laranja Mecânica (A CLOCKWORK ORANGE, 1971) é um filme de antecipação, centrado nas "aventuras de um jovem cujas principais inclinações são a violência, a violação e Beethoven".

Tematicamente, é um grande ataque à hipocrisia. A sociedade que considerou Alex (Malcon McDowel) um criminoso violento e perigoso se revela ao fim tão violenta quanto ele. A prisão para o qual ele é enviado com o objetivo formal de ser "regenerado" é, nas palavras do governador, "um instrumento de punição". O "tratamento" ao qual Alex é exposto para torná-lo "bom" se mostrara um instrumento de desumanização muito mais perigo do que a violência não institucionalizada do protagonista.
Perseguido por críticas hostis, Kubrick viria a afirmar que: "Ainda que exista uma grande hipocrisia a respeito da violência, todas as pessoas estão fascinadas por ela. Afinal, o homem é o assassino mais cruel que jamais pisou o planeta". E é esta violência, filmada de maneira condenatória e nunca apologética, que Kubrick nos lega de maneira crua.
O filme atualiza e encerra de maneira definitiva a questão da violência e dos laços que a ligam ao cinema e a todas as suas formas de quase teatro em que o filme se desenrola. Foi com esmero que Kubrick trabalhou a vertente visual, com o uso perfeito da câmara lenta e das grandes angulares
A ação acompanha o percurso expiatório de Alex, que vai da imaginativa prática do mal (com todas as suas nuances, e liderando uma gang, os Droogs) à prisão. Depois de encarcerado, e já conhecido como 655321, Alex transforma-se numa espécie de angelical alter-ego e deixa-se submeter a um tratamento - o Processo Ludovico -, que o depura de todos os seus instintos agressivos - mesmo os de autodefesa -, em troca da redução da pena.
Segue-se uma segunda fase em que Alex paga, com o corpo, todo o mal que fizera (a vingança das suas vítimas segue-se, em desfile) e a sua recuperação institucional ao mais alto nível, após uma reviravolta política. Crime, castigo e recompensa parece ser o espírito norteador desta metáfora sarcástica e iconoclasta, mas terrivelmente verdadeira, sobre a ironia inerente à relatividade e transitoriedade dos fatos e às prerrogativas do poder.

Revisto nos nossos dias, Laranja Mecânica revela-se como uma obra premonitória, imbuída do culto niilista e radical da violência e da destruição que hoje freqüentemente nos liga ao audiovisual de maneira acrítica. A banalização do mal, no dizer da filósofa frankfurtiana Hanna Arendt.
Ao mesmo tempo, Laranja Mecânica está além desta análise linear do argumento e do filme. Não podemos abstrair da obra total de Kubrick nem podemos considerar cada filme como um pedaço isolado, desligado da criação global. Não podemos esquecer que a mais complexa e completa obra cinematográfica das últimas décadas é do mesmo autor: ‘2001 Uma Odisseia no Espaço’. Seria redutor interpretar Laranja Mecânica como uma mera crítica da violência.
Toda a filmografia de Kubrick aponta para o "herói" solitário que deambula, perdido, por labirintos que são tecidos à sua volta. Geralmente não consegue controlar o destino que o aguarda, e de dédalo em dédalo vai tentando procurar uma saída. Saída esta que pode apenas significar seguir a sua vida. Um labirinto é a analogia perfeita de quem se encontra perdido, de quem não vislumbra as entradas e as saídas.
Ao mesmo tempo, e para além de toda a iconoclastia e crítica da humanidade que Kubrick nos legou, os seus filmes labirínticos, herméticos, sem que se vislumbre o princípio ou o fim, propõem o universo como algo circular, a esfera perfeita, um infinito que se prolonga no reflexo especular dos espelhos que o ladeiam.

Demiurgo, excêntrico, gênio, muitas são as palavras usadas para descrever Kubrick ou para caracterizar a sua obra. Os seus filmes e os seus argumentos proporcionam análises detalhadas e complicadas, muitas vezes sem que se vislumbrem soluções. São obras perfeitas de fruição e interpretação individual.
O filme toma então contornos de uma fábula de crime e castigo pouco convencional, mas o clímax do filme, que corresponde ao momento em que se tenta suicidar, cria um aparente (e falso) final. A partir daí, tudo o que nos foi mostrado antes acaba por ser profundamente alterado: a personalidade violenta de Alex volta a manifestar-se e, numa irônica conjugação de fatores, a personagem reconcilia-se com a sua família e com a sociedade hipócrita, personificada na pessoa do Ministro do Interior.
Em suma, o filme fecha-se em círculo – característica própria da obra de Stanley Kubrick – , visto que a personalidade e o temperamento de Alex se mantêm inalterados, contando este agora com a conivência do Estado e da sociedade que o tentou mudar. Afinal, a película possibilita um choque dialético do interesse privado (direito individual) e os interesses do Estado (direito coletivo).
Nos faz sentir, paradoxalmente, repúdio e carinho por Alex, um verdadeiro anti-herói que encarna os males da sociedade. Ele é a materialização dos nossos instintos e pulsões mais reprimidas, é um ser para além da moral, pois nunca tem consciência de bem e de mal. O filme é uma história de crime e castigo, de ascensão, queda e redenção, percorrido por uma iconoclastia e humor negro únicos. Kubrick transforma uma sátira aos desequilíbrios da sociedade moderna numa narrativa picaresca acerca do lado negro da existência e comportamento humanos. A violência e o móbil de todas as ações de Alex e, para ele – um anti-édipo que ignora o mal estar da civilização -, violência é sinônimo de prazer - a própria Nona sinfonia transporta-o para ilusões orgiásticas e imorais.
Todos os elementos da obra de Stanley Kubrick estão aqui presentes: a circularidade das formas visíveis (o círculo dos prisioneiros na cadeia, o olho de Alex) e invisíveis (o círculo como elemento de organização do espaço e a circularidade da própria narrativa); o fascínio pelas formas labirínticas (o círculo é também uma forma labiríntica, a Londres labiríntica que conduz Alex sempre de encontro às mesmas personagens e locais); o cérebro humano contra a máquina ( a luta de Alex contra a máquina e contra as maquinações do governo e o maquinal "Tratamento Ludovico"); o fetichismo pelo olho humano (os grandes planos do olho de Alex e o próprio filme inicia-se com um zoom out a partir dos olhos dele); e a paixão pelas personagens que perpetram ou convivem com a violência (Alex é violento tal como Dave Bowman que lobotomiza HAL 9000 em "2001: odisséia no espaço", como Redmond Barry amante dos duelos de pistola em "Barry Lyndon", como Jack Torrance acometido por uma loucura assassina em "Shining", ou como o Private Joker transformado em assassino em "Nascido para matar").
"A laranja mecânica" é, por tudo isto, uma obra de extremos, bela e repugnante, cômica e trágica em partes iguais, um filme único, inesquecível e essencial para a compreensão do cinema e da sociedade moderna.
