MONSTRO NA GARAGEM
  

EISENSTEIN, VERTOV E AS VANGUARDAS RUSSAS

 

As relações entre cinema e vanguarda na Rússia consistem, depois de 1917, na atribuição ao novo meio expressivo de um papel particular na realização de um projeto revolucionário, em termos políticos mais do que estéticos. O que caracteriza a experiência do cinema revolucionário russo é a convivência de dois projetos estreitamente ligados. De um lado, o estudo sobre bases experimentais, como se pretendia fazer no laboratório de Kulechov; por outro lado, o projeto revolucionário.

Segundo o espírito cientifico do tempo, Kulechov e seus alunos estudavam as leis constitutivas da comunicação fílmica e os elementos específicos da  linguagem cinematográfica. Numa direção paralela procediam as pesquisas do grupo formalista constituído de lingüistas e críticos literários como Jakobson, Skolovskii, Tynianov e Eichembaum, os quais, além de ocuparem-se de cinema como teóricos ou como roteiristas, influenciaram profundamente, com suas pesquisas sobre estruturas da comunicação literária, as elaborações teóricas e as realizações de uma vanguarda cinematográfica que foi formalista no sentido pleno e melhor do termo (ver Kraiske, 1971).

As mesmo tempo em que elaboravam uma espécie de gramática da comunicação visual baseada essencialmente na montagem, os cineastas russos participavam de um movimento político que acreditava na possibilidade de libertar a arte da condição de separação e isolamento na qual a havia colocado a cultura ‘burguesa’ e de fazer dela um dos elementos propulsores da construção de uma nova sociedade. Em tal projeto foi atribuído um papel de primeiro plano ao cinema, enquanto meio capaz não só de refletir as modificações da experiência perceptiva introduzidas pela técnica e pelas diferentes condições de vida da sociedade industrializada, mas de refazer ele próprio, em sentido revolucionário, as concepções de espaço e de tempo.

Segundo Dziga Vertov, autor de filmes de montagem baseados em filmagens ao vivo, o cinema, renunciando ao teatro com poses, à encenação e sobretudo às temáticas ‘decadentes’ do teatro e da literatura ‘burguesa’, podia dar a sua contribuição para a liquidação da arte (“o próprio termo arte é contra-revolucionário”, afirmava em 1924) e, aceitando e exaltando a sua natureza de olho mecânico, estava em condições de restituir uma ‘mais fresca percepção do mundo’ (ver Bertetto, 1975).

Na verdade, o maior interesse da obra de Vertov está na realção entre a natureza documentalista do material e o artifício do procedimento da sua organização rítmica, segundo um método bastante próximo das técnicas da poesia de Maiokoviski e da teoria do método formal.

Naturalmente, esse modo de combinar empenho polito e experiência formal estava destinado a chocar-se com a incompreensão do grande publico, que na URSS pesar de tudo, continuava a admirar os ídolos hollywoodianos, como demonstra a acolhida tributada a Mary Pickford e Douglas Faribanks em 1926. Nem as coisas podiam ser de outra forma, com os sistemas burocráticos do Partido Comunista que preferiam poucas pesquisas formais e maior eficácia de propaganda.

Ao ‘cimema-olho’ (kino-glass) de Vertov, segundo o estilo pitoresco e rumoroso da vanguarda soviética, Eisenstein contrapôs o seu ‘cine-punho’: propôs um cinema ‘recitado’, baseado sobre a encenação, no qual as ‘atrações’ rigorosamente produzidas e orquestradas fossem capazes de agir em profundidade sobre a psique do espectador. As teorias de Eisenstein, elaboradas inicialmente num contexto teatral, foram aplicadas nos filmes “Greve” (1925), “O  encouraçado Potemkim” (1926) e “Outubro” (1927).

Eisenstein também se chocou contra uma barreira de incompreensões desde o seu primeiro filme. Seu texto ‘a atitude materialista em relação à forma’ (1925, in Bertetto, 1975) procura atribuir à forma fílmica uma função não puramente decorativa e de ilustração de conteúdos e palavras de ordem elaboradas por outros.

Einsenstein, aprofundando suas investigações e experiências sobre a linguagem filmica, chegou a elaborar sua teoria da ‘montagem intelectual’, que encontrou aplicação principalmente em “Outubro”. Dotado de uma vasta cultura literária, cientifica e artística, ele viu no cinema uma linguagem complexa e capaz de realizar procedimentos análogos aos da pintura e do romance, torna-se um terreno de experiências dos processos lógico-comunicativos estudados pela lingüística e pela psicologia: pesquisou em particular as relações entre linguagem cinematográfica e escrita ideogramática, entre as configurações fílmicas e as da linguagem interior, entre as formas do ‘pensamento visual’ típicas do cinema e os procedimentos da ‘mentalidade primitiva’ e do ‘pensamento selvagem’ investigados pela moderna antropologia.

Os aspectos mais ágeis e inovadores da vanguarda soviética foram travados e reprimidos pelo sistema polito. A utopia do fim da separação da arte na construção de uma sociedade, em que a própria arte tomava parte no processo de produção naufragou por causa de um  sistema que, mito mais do que a livre experiência das vanguardas, demonstrou preferir os dogmas; e quando a fé se demonstrou insuficiente, recorreu a métodos repressivos e policiais.



 Escrito por Treponem Pal às 09h35 AM
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10 vezes garage bands! Who´s who of psych, trash and garage diseases, by Monstro na Garagem

 

The Stooges - Metallic K.O. – Bootleg com capa em alto relevo contendo registro póstumo do último show dos Stooges. A gravação é anfetamínica, mas dá para ouvir o barulho das garrafas e outros objetos arremessados contra a banda, e Iggy Pop vociferando impropérios contra a audiência. Clássicos absolutos do proto-punk: Search and Destroy, No fun, Gimme Danger, etc., embalados numa massa de eletricidade, subversão e vulgaridade. É raríssimo e não tenho informação se foi lançado em Cd. Eu juro que já tive um.

 

The Monsters - I see Dead People - voodoo rhythm records – 77´s punk + garage + blood gore psych! Esses suíços alucinados são talvez a melhor garage em atividade desde os Fuzztones. Por incrível que pareça já tocaram no Brasil, em centros urbanos médios como Londrina (!) Eu, como sempre, só fiquei sabendo um ano depois.

Psychedelic Jungle – The Cramps – Mesmo depois de dezenas de músicas sobre Ed Wood e filmes B, os Cramps continuam sendo uma das melhores Garage Bands surgida da fenda criada pelo pós-punk. Muito além do sub-gênero psychoabilly, temos neste album uma gama de tendências musicais que vão do surf ao primitive rock´n´roll, contando, ainda, com a melhor formação da banda já registrada. Cultuados por gente como Morrissey, Joe Ramone, Francis Ford Copolla, e Jim Jarmush. Ao vivo, como nesse trabalho, são impagáveis.

Chocolate Watchband – At the love in live – A psicodelia traduzida em fuzz, guitarras distorcidas e pouquíssimo senso melódico. Ao lado de outra 60´s garage, Blues Magoos, Influenciou mais bandas indies do que o Velvet Underground, só que sem a pretensão de um Lou Reed. Algo como os Beatles on acid.

Thee Butchers Orchesthastop talking about music le's celebrate that shit -voodoo rhythm rec. - Por certo uma das melhores Garage-trash-blues da atualidade! Marcos Butcher, ex-baterista do paulistano Pin-Ups, conduz a voz – muita parecida com Iggy Pop – e a guitarra nesta prolífica banda que já tem Cds lançados pela badalada label suiça Voodoo Rhtym. A banda tem duas guitarras incendiárias e nenhum baixista. Nevermind the Spencer Blues Explosion and White Stripes. Here´s the Butchers.

 

Electric FrankensteinHow to make a Monster - Uma imersão em um pântano de guitarras distorcidas e agonizantes. Influências notórias do glam-rock inglês e do proto-punk de Detroit (MC-5, Stooges). Temática básica sobre Horror B, sexo, ódio à humanidade e cafajestagem de quinta. Do que mais precisamos? Deveriam tocar no Brasil – nestes festivais tipo Skol Beats e Tim - , para espantar essa pretensão adolescente e oportunista de gente como Rapture e Libertines.

Back from the Crypt – Todos as antologias lançadas pela Back from the crypt são fundamentais. São dezenas de garage bands americanas retiradas da obscuridade dos anos 60; muitas das quais gravaram apenas compactos em Mono e fizeram shows somente em suas respectivas cidades de origem. Tesouros perdidos da necrofilia punkster, combo, surf-guitar, psychedelic e 60´s pop. São vários master-tapes recuperados de gravadoras tão obscuras como Arf-Arf e Urco. Já deveria ter sido lançado no Brasil, mesmo com prejuízo certo.

Brazilian Peebles – Antologia organizada por Luis Calanca, dono da lendária loja Baratos Afins, contendo bandas brasileiras OFF-MTV, como as paulistanas Vaca de Pelúcia, Butcher´s orquestra e Transistors. A concepção original do projeto remete às coletâneas Peebles e Nuggets especializadas em velharias sessentistas. Algumas letras em português revelam uma realidade lisérgica e sonâmbula, paranóias urbanas e irônicas bandeiras culturais 60´s. Dor, mágoas e uma alegria contida, aliada aos equipamentos Low Fi da produção, são algumas das características deste projeto que não descaracterizam o gênero, mas investe em estruturas musicais contemporâneas já exploradas pelos ingleses dos anos 90 LOOP e Perfect Disaster. Algumas músicas lembram as viagens psicodélicas soturnas de bandas americanas como Amboy Dukes – Oportunidade para conhecer os emergentes do underground paulistano. Contato: vacadepelucia@hotmail.com  baratosafins@baratosafins.com.br

Syd Barret – Madcap Laughs - Sonhos em forma latente, sugestão, expressões faciais contemplativas, uma concepção escultural da imagem, um estudo cuidadoso sobre a movimentação de corpos e a topografia de uma superfície desconhecida (da imagem, dos rostos, das paredes) para além de qualquer noção temporal. Impressionista e ao mesmo tempo 100% experimental. Jubilado do Pink Floyd pelos excessos químicos, este é o testamento vaporizado de um lunatic leitor de James Joyce.

Plasticland – PlasticlandPsychedelic Garage, cheia de efeitos, marcada pelo groove, com um pé no mod (influências de Kinks e Yardbyrds) dividindo as tessituras com sussurrados vocais entre o melódico e o balbuciado. Urgência, barulho (pedal fuzz ligado no volume máximo), protopunk de ícones garageiros (Seeds, Sonics) letras pungentes entre o ridículo e o sublime. Sonhos e delírios. Plasticland mantêm as sonoridades do passado (mais para a perpetuação de timbres e a adaptação de maneirismos, menos para a mera reprodução) e revivem o visual perdido pelos brechós das esquinas da High Ashbury.

 




 Escrito por Treponem Pal às 01h24 PM
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