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THE DAY THE EARTH STOOD STILL - O DIA EM QUE A TERRA PAROU
Robert Wise (Amor, sublime amor e Noviça rebelde), na contramão dos filmes sci-fi que ocuparam as salas de exibição dos anos 50, dirigiu esta excelente história de uma inteligência não humana (Michael Reenie) portador de exortações pacifistas aos terráqueos que, nas tratativas frustradas de comunicação, é fustigado com balas pelos militares. Ao seu socorro vem o robô Gort. Recuperado dos ferimentos, assume outra persona e, com ajuda de uma família com quem se simpatiza, reúne-se com várias inteligências humanas (cientistas do mundo inteiro) com quem pode abertamente falar dos perigos da hecatombe nuclear.
A maneira pela qual um diretor mostra um objeto depende muito da ação dramática ou do tipo de filme ou da platéia a que se destina. A vista aérea de uma cidade será tratada de modo diverso num documentário sobre planejamento urbano e num filme de ficção. Exceto a seqüência inicial do disco voador sobrevoando a cidade – impressionante, ainda hoje -, muitas cenas foram filmadas do ângulo visual de um voyer, ora nos ‘informando’ do pânico da população – a maneira documental -, ora nos fazendo participar da trama. Tudo sugere com delicada precisão um mundo que é familiar, mas não é o mundo dos adultos.

Após ser baleado pelo exército, Klaatu é levado pelo robô Gort ao interior da nave. Ao aproximar-se do seu interior a câmera por um momento recua, apontando uma reticência ao desconhecido. Em outras palavras, ao dirigir-se pelo interior da nave, agora nos revelada em detalhes e cores, condensa ou expande o tempo da vida quotidiana, apontando para a nossa finitude em contraste com a longevidade do alienígena. O tempo, no filme, é sempre colocado em questão quando se discute planos ou quando estes resultam frustrados: O alienígena longevo mas que perde sua vida ao se deparar com a violência primal dos humanos; a duração da viagem espacial; o pouco tempo de que dispõem Klaatu para convencer os humanos; culminando com a interrupção de todas as atividades da terra durante um determinado tempo, visando o convencimento dos céticos.
Klaatu morre, ferido novamente pelos humanos, ao contrário da maioria dos híbridos de sci-fi e horror dos 50,ele não é um fantasma, mas um ressurrecto, a exemplo dos hereges gnósticos, prestes a convencer sectariamente a humanidade do seu pendor belicista. O Robô Gort é o princípio da fantasia nos clássicos sci-fi, a imortalidade, enquanto Klaatu é o estudioso da morte. A morte é encenada várias vezes durante o filme. Ao final da película, entretanto, há muito já parece póstumo. Que pese a ainda atual retórica pacifista - então subproduto da tensão ideológica advindo da guerra fria -, o final do filme não deixa de ser atualmente controverso, pois sustenta o controle absoluto das nações por inteligências superiores, apontando o preço totalitário que deveremos pagar por um duvidoso processo de paz, já que somos um perigo eminente para outros mundos.
Escrito por Treponem Pal às 09h00 PM
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OS 10 MELHORES ‘FILMES DE APARTAMENTO’, AMBIENTADOS EM NEW YORK, SEGUNDO O EDITOR.
SHAFT (Gordon Parks, 1971) Muito além do sub-gênero Blaxploitation, um instantâneo social da New York 70.
THE PRISIONER OF SECOND AVENUE (O Prisioneiro da segunda Avenida, Melvin Frank, 1975) O melhor retrato da paranóia urbana: desempregado, trancado em um apartamento no inverno novaiorquino, desconfiado da esposa - que sustenta a casa - às turras com os vizinhos e achando que existe uma conspiração governamental a caminho. Neil Simon (ainda) brilhante e Jack Lemmon genial.
MANHATTAN (Woody Allen, 1979) Bela declaração de amor à cidade de New York! A seqüência na qual Woody Allen corre ao aeroporto para se despedir de Mariel Hemingway, em um longo travelling lateral, não é para qualquer um.

SERPICO (Sidney Lumet, 1973) Uma New York que parece São Paulo; policiais parecidos com os nossos; corrupção e desencanto. A diferença é que eles tem Al Pacino.
DOG DAY AFTERNON (Dia de Cão, Sidney Lumet, 1975) A história é excelente: um assalto a banco com intuito de custear uma operação de mudança de sexo. Al Pacino é o principal interessado.
ROSEMARY´S BABY (O bebê de Rosemary, Roman Polanski, 1968) Neste exato momento, seu vizinho de apartamento poderá estar organizando um coven de bruxos. Sinuoso e cheio de detalhes macabros. O mal só se corporifica pelos olhos de Mia Farrow. “O que vocês fizeram com os seus olhos” perguntava, aterrorizada, Rosemary, ao encarar seu primogênito.

BELL, BOOK AND CANDLE (Sortilégios de Amor, Richard Quine, 1958) Novamente as bruxas na cidade de New York. Só que uma delas é Kim Novak, lindíssima nesta comédia de Richard Quine. O cabaret Zodiac, num porão, cheio de beatniks, com Jack Lemmon tocando bongôs e Elsa Lanchester como freqüentadora assídua é impagável.

NEW YORK, NEW YORK (Martin Scorsese, 1977) Ao contrário de Woody Allen, que retrata uma New York overground, branca e intelectualizada, Scorsese revela uma cidade underground, sombria e perigosa.
THE FRENCH CONNECTION (Operação França, Willian Friedkin, 1971) Friedkin simplesmente subverte a perspectiva da câmera para monstrar o quão difícil é perseguir um bandido pelas ruas de New York.
THE APARTAMENT (Se meu apartamento falasse, Billy Wilder, 1960) Bitter sweet symphonie! Novamente Jack Lemmon, novamente New York, mas dirigido por Billy Wilder. É tudo.

Escrito por Treponem Pal às 02h30 PM
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PLAN 9 FOR OUTER SPACE - ED WOOD

Obviamente não se trata do pior filme da história do cinema (ver Mesa of Lost Women, 1953), nem tão pouco do mais divertido na especialidade drive in movie ou shllock, mas com certeza é o mais famoso atom era movie de todos os tempos. Por óbvio também dispensa comentários a apresentação de Mr. Edward Wood Jr., diretor deste artefato pop cultuadíssimo por cinéfilos de todo o mundo e um dos responsáveis diretos – ainda que não consciente - pela influência do cinema independente na contracultura e no underground. Desde a utilização de uma das equipes mais freaks da história do cinema, no qual se inseriam um ator decadente de filmes de horror e morfinômano confesso (Bela Lugosi), um lutador de telecatch (Tor Johnson) e um ex-affair de Jimmy Dean e símbolo sexual duvidoso (Vampira), até os roteiros absolutamente infantis e despropositados, os filmes de Ed Wood são exercícios ineficientes de amor ao cinema. Eleito o pior diretor de todos os tempos por um colegiado de críticos americanos da década de 80, a fama que Ed Wood não contabilizou em vida foi transferida para sua morte, cercando de mistérios e boatos – muitos dos quais gratuitos – sua biografia e a realização de seus projetos.

Não há sustos ou suspenses em seus filmes de horror e mistério, mas o humor que submerge deles – involuntários, claro – prende o espectador que não se vê na obrigação de assistir a um espécime artístico, funcionando psicologicamente como instrumento compensatório, como ‘flor do lodo’ - na expressão cunhada por Millor Fernandes -, extraindo das desastrosas e pífias encenações, interpretações medíocres e erros de continuidade sua graça nervosa. A desculpa para rir da desgraça alheia.
A parte a ausência de capacidade lógico-formal de sua história, principalmente em razão da inserção de cenas roubadas de outros filmes, Plan 9 for outer space é um sci-fi típico dos anos 50, cujas características (medo da energia atômica, invasão alienígena, zumbis e macistes) são marcas registradas de várias produções de baixo orçamento realizadas por estúdios pequenos assombrados pela guerra fria e o mackartismo, mas que, no seu crepúsculo, viriam a ser objetos de estudos críticos mais eficientes, homenagens e/influências explícitas, tanto pelo cinema mainstrean (Tim Burton, Tarantino, Joe Dante, Brian de Palma, Copolla) como pelas vanguardas históricas (Win Wenders, Warhol, Godard, etc.).
Pauline Kael, a temida crítica da revista New Yorker, manifestou carinho por essas pequenas peças cinematográficas espalhadas pelos anos 40-50; para muitos, influenciou diretamente a coragem dos filmes independentes.
Escrito por Treponem Pal às 03h51 PM
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OTHELLO - ORSON WELLES

Filming Othello (1978), o filme em que Orson Welles narra como realizou o seu precedente Othello (1952), começa monstrando-nos o diretor na moviola enquanto dá uma pequena aula sobre montagem:
“Esta é uma moviola, a máquina para montar os filmes. Prestem atenção, porém, quando dizemos que estamos cuidando da edição e da montagem de um filme, na realidade não dizemos o suficiente. Os filmes não se realizam só no set; grande parte do trabalho se faz exatamente aqui, por isso uma moviola como esta é quase tão importante quanto a câmera. Aqui os filmes são salvos, às vezes resgatados do desastre ou massacrados.
Esta é a última parada do longo percurso entre o sonho criativo de um cineasta e o público a quem o sonho é destinado” (transcrição da dublagem da edição francesa).
Welles levou cerca de quatro anos para concluir esse filme (de 1948 e 1952), tendo tido muitas dificuldades de produção, problemas devidos à não disponibilidade dos atores etc. ele foi obrigado a abandonar e retomar as filmagens várias vezes mudando continuamente os locais (de Veneza para Marrocos), porque naquela época estava rodando outros filmes como ator.
Felizmente existe a montagem, nos diz Welles em Filming Othello, recordando o milagre que nos atingiu.
É curioso que esse elogio da montagem seja feito pelo diretor que talvez mais tenha influenciado as teorias de Bazin sobre o fim da ‘montagem soberana’. Por outro lado, tal elogio, centrado como sutil ironia sobre o poder de simulação desse aspecto fundamental da técnica e da linguagem do cinema, foi feito a propósito da versão fílmica de uma drama shakesperiano no qual encenação e simulação têm um papel importante na intriga. Não podemos esquecer que Welles também é o autor de ‘Verdades e mentiras’ (1973), um irônico pastiche sobre as relações entre arte e falsificação.
Mesmo com motivações muito pessoais, Welles define aqui a primeira e mais elementar, função de montagem: uma função que não é ainda lingüística e expressiva, mais próxima à do truque, do engano. Com a montagem, como nos recorda Welles, se pode dar a ilusão de que duas porções de espaço, filmadas em locais diversos (Veneza, Marrocos) e de continuidade (de tempo) é certamente o resultado de uma série de mecanismo usados durante a filmagem e a montagem, mas também de uma cooperação do espectador que integra as informações deduzidas dos enquadramentos individuais, ativando uma série de relações espaço-temporais sugeridas pela sucessão.
A construção da peça de Shakespeare por Welles, destituída de suas operações contextuais, de seleção e montagem nos orienta por uma Veneza sombria divorciada da cooperação interpretativa tão cara à semiótica, uma vez que Othello, interpretado pelo próprio Welles, se sobrepõe aos demais atores, emergindo das sombras teatrais envolto unicamente na máscara do ciúme, e este ciúme se faz sentir como rancor. Nem Iago (Micheal McLiammóir) consegue obscurecer o personagem de Welles. O historiador de arte Allan Bloom denomina de peças venezianas ‘O mercador de Veneza’ e ‘Othello’, porquanto, na sua opinião, esta era a única cidade do mundo renascentista capaz de abrigar a cooperação entre personagens de etnias e culturas diversas, nos casos citados, respectivamente o judeu e o muçulmano. Mas a Veneza de Orson Welles, em Othello, é um dédalo expressionista para dentro do qual somos arrastados pelo onisciente ciúme dirigido à Desdemona (Suzanne Cloutier), em nada se parecendo com a cidade luminosa projetada por Shakespeare ou analisada por Bloom. A marca da intolerância é vista na forma da organização das relações espaciais (entre figura e fundo, entre personagens e objetos, entre trajetórias dominantes, etc.), com a constante sensação de opressão sobre os personagens, resultado da câmera baixa, característica do cinema de Welles.
Orson Welles foca seu trabalho em si mesmo, ou seja, em Othello, contrariando os especialistas em Shakespeare (Harold Bloom, Samuel Johnson) que apontam Iago como o personagem mais bem construído no texto, em razão da sua densidade psicológica. De qualquer maneira, inferior ao seu desempenho em Falstaff (1966 ), este sim um personagem tão grande quanto seus cenários wagnerianos.
Escrito por Treponem Pal às 01h21 PM
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